Equador: Quando o percurso é tão incrível quanto o destino final

Festividade em Zumbahua!

Festividade em Zumbahua!

Quando estamos viajando, a expectativa de chegar a algum lugar – seja ele um museu, uma torre ou a uma nova cidade – sempre nos causa bastante ansiedade e com ela, uma espécie de cegueira que nos impede de curtir o caminho que leva até o tão esperado destino final.

Foi no dia 2 de janeiro deste ano que, por pouco, deixei de disfrutar de um dos melhores “percursos anônimos”, daqueles que nunca iremos achar em guias turísticos, pois sempre serão eclipsados por um ponto turístico de maior importância. No caso, eu estava no Equador, seguindo com minha família em uma van que iria do Parque Nacional Cotopaxi em direção à cratera do vulcão Quilitoa. Estávamos bastante ansiosos para chegar até a cratera. Caso não parássemos, a viagem duraria algo em torno de duas horas, tempo suficiente para cochilar, conversar e colocar o instagram do Viageria em dia. Felizmente nada disso aconteceu.

Quem nos guiou foi um excelente motorista chamado Juan Pablo que, na companhia de seu filho de 11 anos – o simpático Sebastian – nos mostrou várias curiosidades sobre o local, como por exemplo, o rastro da destruição causada pelo fluxo piroclástico (uma nuvem de cinzas, pedras e gases quentes que viajam em uma velocidade de até 160 km por hora) que destruiu parte de florestas e alguns vilarejos. Bastava informações como estas para que aquele “percurso anônimo” já saísse da categoria de uma simples viagem de van, até que o nosso motorista disse que precisávamos parar em Latacunga, uma cidade no meio do caminho, 89km ao sul de Quito.

Em Latacunga, ele nos apresentou a chugchucara, um prato típico local: imaginem uma deliciosa mistura de milho cosido, bacon, carne de porco e empanadas servidas em um prato. Mais especial ainda foi a recepção da simpática anfitriã, dona Rosita (e sua família), uma senhorinha linda que poderia ser a vovozinha de todo viajante. Em breve faremos um post somente sobre o restaurante, Chugchucaras Rosita.

Imagem de Doña Rosita

Doña Rosita, a grande anfitriã!

Se parássemos o passeio por ali e voltássemos para Quito, já estaríamos satisfeitos pela experiência na estrada, mas havia ainda muito chão pela frente, ainda faltava mais de uma hora até a cratera do Quilotoa. Contudo, depois de duas rodadas de chugchucaras, a carne de porco começou a pesar no estômago e também nos olhos, que começaram a fechar, embalados pelo sacolejar do veículo nas estradas que cruzavam as montanhas dos Andes.

Porém foi impossível dormir, a paisagem nas alturas se mantinha em constante mutação, a cada curva uma nova montanha, um novo vulcão ou um pequeno vilarejo. Cemitérios simples e coloridos, alegravam melancolicamente os fundos de vale. Canyons enormes rasgavam montanhas com seus escuros abismos. Era comum se ver pela estrada, vestidos à moda dos povos andinos, algumas famílias locais que se aqueciam sob a luz do sol enquanto aguardavam o transporte ou carona.

Em um dos pequenos vilarejos havia um engarrafamento e muito agito na rua principal. As placas indicavam que estávamos no povoado de Zumbahua e o que parava o trânsito era uma festividade local ou, muito provavelmente, um casamento com celebração aberta ao público, algo comum na região. A rua estava lotada, centenas de pessoas festejando, seguindo um trajeto como em uma procissão. A música estava por conta de uma pequena orquestra que embalava a multidão ao som de seus tambores e trompetes de todos os tamanhos.

Para terem uma ideia da animação e ouvir a música local, encontrei um vídeo de uma festa da cidade:

Todos dançavam e bebiam da cerveja local. As mulheres sempre vestidas à moda andina com o chapéu de côco, preto feito carvão e tranças no cabelo, saião preto rodado e xales bastante coloridos nos ombros arrematavam a vestimenta. Já para os homens parecia não haver regra, apesar de ter visto alguns bastante elegantes, de terno limpo e bem passado e cabelos lustrados. Ademais, pude ver alguns fantasiados de palhaços e até personagens como o Kiko do Chaves. Ao perceber que demoraríamos um pouco até a passagem da multidão, aproveitei para descer do carro e me misturar à população e sentir a distinta energia que o povo andino oferece aos forasteiros. Entrei na grande festa e essa escapadinha da van me rendeu ótimas fotos.

Encontramos uma brecha na multidão e enfim pudemos atravessar. Seguimos viagem e logo chegamos ao nosso destino, a cratera do Quilotoa. Lá do alto, exposto aos ventos gelados, enquanto admirava o lago que coloria de um verde profundo o interior da cratera, me peguei pensando que mesmo depois de ter passado uma tarde inteira em uma van para chegar ao meu destino, eu não via a hora de dar a meia volta e pegar a estrada novamente.

Destino final, a cratera do Quilotoa.

Destino final, a cratera do Quilotoa.

 

Início do trajeto, o Parque Nacional Cotopaxi

Início do trajeto, o Parque Nacional Cotopaxi