Aos trabalhadores da estrada

Aos trabalhadores

O veículo estava lotado, com pessoas jogadas a dormir pelo corredor. Meu mochilão estava acomodado no meu colo por motivo de segurança, pois eu não queria ter a bagagem extraviada “propositalmente”. A noite de lua cheia revelava as montanhas além da planície dos Andes e banhava todo o deserto gelado com seu tom prateado.

Uma luz vermelha enfeitava a cabine do motorista. No meio da viagem, quando os passageiros tagarelas já haviam se acalmado e dormiam encolhidos de frio, ouvia-se apenas uma música que atravessava a fresta da porta que separava a cabine do motorista do resto dos viajantes. O som vinha de um radinho a pilha apoiado sobre o painel e emitia uma canção andina, composta por flautas, instrumentos de corda e acompanhada pela voz de uma mulher que parecia parecia chorar as adversidades de sua terra (foi o que imaginei).

A cabine vermelha de um motorista anônimo

A cabine vermelha de um motorista anônimo

Apesar de todo o desconforto, esta foi uma das viagens mais prazerosas que eu já havia feito. Parecia um filme em que os protagonistas eram o anônimo motorista e sua grande máquina. Sabe-se lá quantas vezes aquele homem repetia aquele percurso toda semana, ou o que se passava em sua mente enquanto manejava o volante pelas estradas escuras, onde somente se entrevia o cascalho iluminado pelo farol e a silhueta dos Andes contra o céu escuro e estrelado. Será que ele percebia aquela beleza de seu trabalho?

Tão importante quanto o anônimo condutor do ônibus noturno dos Andes, foi também Nathanael, o nosso guia em uma viagem pelos desertos da Namíbia. Sempre falante e disposto a alimentar a nossa curiosidade, Nathanael nos ensinava a pronunciar a distinta e complicada lingua dos Bushman – uma tribo conhecida por ser um dos primeiros povos a habitar o planeta – enquando dirigia pelas estradas daquele país selvagem. Nas paradas para descanso durante as longas noites, entre uma cerveja e outra, entre um duro bife de zebra e um suculento bife de orix, Nathanael nos contava que queria conhecer o mundo. Desejava conhecer o Brasil, mas pensou duas vezes quando mostramos pela tela do celular, algumas fotos dos metrôs barrotados da cidade de São Paulo e os mega engarrafamentos da Marginal Pinheiros. “Fuck! Tudo isso é gente? Quanto carro! Todos esses pontinhos são pessoas?”.

Só se entende a surpresa de Nathanael quando comparamos o seu país com o Brasil. A população da Namíbia é de apenas 2 milhões de habitantes, e a capital Windhoek, onde ele vivia, apenas 325 mil habitantes. Mostramos imagens do show dos Rolling Stones em Copacabana e seus olhos se arregalaram quando soube que naquelas areias estava comportado o mesmo numero de pessoas que toda a população de seu país.

Glau, Luis, Nathanael e André

Glau, Luis, Nathanael e André

Nathan, como o chamávamos, parecia ter o dom de falar com os elefantes. Sabia onde encontrá-los na imensa planície do Etosha, um parque com área de 22.270 Km2. Foi incrível quando ele brecou, parando seu carro no meio do nada e disse, “hey man, em dez minutos um casal de elefantes cruzará a estrada na frente do nosso carro”. (Não havia elefantes à vista, acreditem! Eu perceberia facilmente um elefante, com todo aquele tamanho, andando desengonçado em uma planície… dois elefantes seria duas vezes mais fácil). Duvidamos um pouco, achamos que ele queria descansar depois dos longos percursos que cobríamos diariamente, mas logo percebemos que ele falava sério.

Não demorou muito e dois pontinhos cinza surgiram na linha do horizonte. Acompanhamos pacientemente o caminhar daquelas imensas criaturas e logo o tímido casal desfilou, para a nossa surpresa, diante do carro.

Nathan e muitos outros foram brilhantes em seus trabalhos.

Glau se admira diante dos elefantes

Glau se admira diante dos elefantes

Pé na Estrada

Os trabalhadores da Estrada

 

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