Curuçá, um paraíso amazônico em perigo.

Fui para Curuçá, no Salgado Paraense depois de ter conhecido o João Meirelles, do Instituto Peabiru na semana anterior, em Belém. O João me mostrou uma reportagem da revista Brasileiros que falava sobre a ameaça aos manguezais de Curuçá e contava a história da família do Mestre Cristóvão, um dos mais antigos pescadores da região. Me interessei de imediato pelo lugar e por aquela família. Alguns dias depois, lá estava eu em Curuçá, comendo um carangueijo desfiado com legumes preparado pela Conceição, filha do Mestre Cristóvão, enquanto esperava pela chegada do seu outro filho, o Charles.

Antes de chegar lá, descobri que o mangue é elemento fundamental no sustento da maioria das famílias de Curuçá, cidade paraense de pouco mais de 30 mil habitantes que fica a 140 KM de Belém, na Amazônia Atlântica. Essa parte do mapa também é chamada de Salgado Paraense e guarda verdadeiros tesouros naturais, como a Ilha da Romana, primeira praia em mar aberto após a foz do Rio Amazonas, e os manguezais de árvores altas, que juntamente com os manguezais do Amapá, estão entre os mais preservados do mundo. Esse paraíso está ameaçado pela construção do Espadarte, nada mais nada menos que o maior porto do Norte do País, para a exportação de minérios e soja. O projeto do porto ainda não saiu do papel, mas isso deve acontecer em breve.

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Quando o Charles chegou, eu já tinha terminado meu prato de carangueijo. Antes de me cumprimentar, ele deu um longo abraço na filha, Celine e contou: “Essa vai ser ambientalista, entende tudo de tartaruga!”. Já era tarde da noite quando ele se dispôs não só a conversar comigo, como também me levou para conhecer o Abade, local de onde saem os barcos de pesca. Preocupado com a ameaça à biodiversidade local, provocada não só pela possível construção do Porto, mas também pela falta de instrução da comunidade local, o Charles sonhava criar um projeto que ajudasse no desenvolvimento sustentável da comunidade e ao mesmo tempo atraísse turistas para a região. Suas ideias transformadoras acabaram contagiando toda a família, que se uniu para a realização do projeto. Com ideias em mente e quase nenhum dinheiro nas mãos, ele começou a realizar seu sonho sete anos atrás, quando comprou uma caixa de cerveja para vender durante o agitado carnaval de Curuçá. Após o carnaval de lucro revendendo cervejas, começou a comprar carvão e revender também. Poucos meses depois, já havia juntado alguma quantia para começar a construir o Lá no mangue, uma agência de ecoturismo e restaurante que funciona na frente da casa da família e tem como quintal, o mangue.

O amor do Charles pelo Lá no Mangue é tamanho que ele se emocionou duas vezes me contando a história do projeto. Busca inspiração no pai, Cristóvão, mestre calafate e pescador. Herdou do avô que construía barcos, a habilidade para a carpintaria. Cada detalhe do espaço foi pensado com carinho e construído com o suor daquela família. A irmã, Conceição, prepara os deliciosos pratos servidos no restaurante, a maioria com frutos do mar e ‘frutos do mangue’.

Turismo de base comunitária

A principal proposta do Lá no Mangue é promover a inclusão social dos moradores através do turismo sustentável, instruindo visitantes, protegendo a biodiversidade e gerando renda para a população local. Ele está ‘tecendo’ uma rede de colaboradores para criar um cardápio de serviços completo de apoio ao visitante, em que todos saem ganhando. Seja um pescador artesanal, que ganha por demonstrar sua técnica, seja uma família que recebe o turista, e por aí vai.

O potencial turístico da região é enorme, tão grande quanto a ameaça do impacto ambiental que pode ser provocado pela construção do Espadarte. Além da lindíssima praia da Romana e dos manguezais, conhecer a pesca artesanal e dormir na casa dos locais são alguns dos serviços do Lá no Mangue. O compromisso com a educação ambiental é tamanho que só participa do projeto de ecoturismo os moradores que demonstram total responsabilidade com o meio ambiente, que descartam lixo corretamente, não desmatam o mangue e pescam com responsabilidade.

Eterno sonhador que é, aquele garoto que começou a trabalhar cedo na pesca junto ao pai, cresceu e agora planeja instalar uma biblioteca em pleno mangue, “construída de forma sustentável, sem agredir o eco sistema”. Ele quer que jovens e crianças da região tenham aulas ao ar livre e conheçam melhor o manguezal, para que estejam preparados para protegê-lo. Mais que sonhador, Charles é Realizador. Está se graduando em Gestão Ambiental no fim do ano e já pensa em fazer uma pós graduação no ano que vem. E ainda hoje, não deixa de sair para pescar quando pode.

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*Esta viagem não teria acontecido sem a participação inicial de uma amiga muito especial, a Mayra Fonseca, do O Brasil Com S. Foi ela que me apresentou o João Meirelles, do Peabiru, através da mulher dele, a Fernanda. Registro minha gratidão aos três e claro, ao Charles e sua família.

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