As cores fortes de Marrakech

Depois de uma temporada de dois anos em Barcelona, eu estava me despedindo da Europa e voltando a morar no Brasil. Para as últimas semanas, planejava uma viagem ao leste europeu mas uma promoção incrível provocou uma drástica mudança de planos: Marrocos!

Medina

As lojas da Medina de Marrakech.

A chegada foi bem peculiar. O termômetro do aeroporto de Marrakech marcava 39 graus, pouco depois das 19h00. Meu organismo quase não entendia o que estava acontecendo. Um homem enviado pelo hotel nos esperava no desembarque. Foi estranho ver nossos nomes escrito à caneta, num papel amassado, enquanto todos os outros estavam impressos, como é comum de se ver. Logo estávamos à bordo de uma kombi que estava caindo aos pedaços, à caminho do hotel. Já estava escurecendo quando o motorista, que não conversava muito, desviou do caminho e entrou numa feira livre, parando a kombi para comer um ovo cozido sem descer do carro. Retomando a direção, adentrou as ruelas escuras que costuram a Medina. Várias ruelas depois, parou novamente – no lugar mais escuro e silencioso que passamos até então. Abriu a porta e nos pediu para descer. Eramos 4 lá dentro da Kombi e não me lembro quem teve coragem de sair primeiro. Cada um pegou sua mala e o homem disse para seguí-lo, pois não era possível entrar com a kombi no beco. Começou a caminhar pela rua estreita, que tinha construções com muros altos, algumas portas e nenhuma janela. Seguir aquele homem num lugar tão estranho para mim, na escuridão e escutando apenas o ruído das rodinhas das malas se arrastando na terra, me fizeram ter pensamentos que variavam entre “caí numa armadilha” e “vão roubar todos os meus orgãos”. Alguma caminhada depois, chegamos numa porta, parecida com outras por ali, sem nenhuma placa. “É aqui”, disse ele.

Vista do terraço do Riad. Ao funfo, o minarete iluminado da Koutoubia, maior Mesquita de Marrakech.

Vista do terraço do Riad. Ao funfo, o minarete iluminado da Koutoubia, maior Mesquita de Marrakech.

Foi quando uma simpática senhora abriu a porta do que era muito mais do que esperávamos, varrendo qualquer vestígio de medo e tornando cômica aquela situação inicial. Eu nunca imaginaria que por trás daqueles muros altos, cor de terra e sem janelas, pudesse existir um lugar tão acolhedor e colorido. São os Riads, as moradas típicas marroquinas, completamente fechadas para o exterior, com um pátio central que geralmente inclui jardim e alguma fonte de água ou piscina. Essa arquitetura faz com que a temperatura dentro dos Riads seja bem mais amena do que fora. E se você quiser uma dica para aproveitar Marrakech de forma mais genuína: fuja dos resorts e fique num Riad. Vários deles foram reformados e se converteram em ótimos hotéis dentro da Medina!

Mosaico

Na luz do dia, as cores da cidade se revelam e se expressam sempre com tons fortes. Nas fachadas externas, o avermelhado da terra predomina. No interior dos prédios, o branco contrasta com as texturas e mosaicos feitos centenas de anos atrás. Sem contar com os tapetes que são sempre coloridos, com estampas maravilhosas.

Se você fala francês, vai falar com todo mundo. Se não fala outra língua e nem arranha o inglês, não se preocupe, pois os marroquinos sempre vão encontrar um jeito de se comunicar contigo. E isso vai acontecer o tempo todo: pense duas vezes antes de responder alguém na rua ou você corre o risco de ser seguido até que a pessoa consiga te vender qualquer coisa. No primeiro dia, cheguei a ser seguido por vários quarteirões e fiquei bastante incomodado com isso. No segundo dia, já tinha entendido o sistema local e consegui abstrair tudo isso, além de aprender a lidar melhor com os marroquinos mais insistentes. Isso pode ter acontecido mais constantemente comigo porque a cidade estava com um volume muito baixo de turistas (as razões da cidade estar vazia eu explico lá em baixo). No entanto, é importante saber que Marrakech é uma cidade segura, furtos e assaltos são raros. A princípio pode parecer que não, por causa do assédio exaustivo aos turistas. Mas não se preocupe em sair andando e ser perder pelo souk – o grande mercado que se estende pela Medina a partir da imensa praça Djemaa El-Fna. A noite também é bem animada na praça. 

Praça Djemaa El-Fna

É preciso tomar muito cuidado ao comprar água. Só beba água engarrafada (industrializada mesmo). Evite gelo, e só tome suco de frutas se for feito com água engarrafada também. Para fazer refeições na cidade, peça dicas de bons restaurantes no seu hotel. A questão da higiene é realmente um problema e muitos turistas acabam perdendo dias inteiros de viagem por causa da dor de barriga.

Pelas ruelas da Medina

Era mês de Ramadã, quando os muçulmanos não podem comer nem beber enquanto há luz do dia. Com o calor que chegou a 47 graus, não consigo imaginar como eles conseguiam ficar sem água. Para respeitá-los, procuramos não tomar água nem comer no meio da rua. Além de aturar o calor todo sem beber água, o marroquino pode ser poupado de se deparar com um turista matando a sede com água fresca, certo?

E a tal promoção incrível, valeu a pena? O preço era muito baixo para imaginar um serviço de primeira. Foram 250 euros por 5 dias no hotel Riad Pachavana, para 2 pessoas, com cafés da manhã, jantares e até massagem.  As boas avaliações que li sobre o hotel me ajudaram a decidir. Além disso, a Ryanair deu mais uma mão para a viagem acontecer: passagem de ida e volta por 50 euros. Foi quase uma viagem-surpresa: após a compra, em pouco mais de uma semana, estávamos embarcando para Marrakech. E o serviço foi sim de primeira: uma das viagens com melhor custo-benefício que já fiz.

Riad Pachavana, o hotel.

Riad Pachavana, o pequeno hotel de apenas 12 quartos. Foto do André.

Mais que a lembrança de um lugar maravilhoso, tenho a lembrança de pessoas que fizeram muita diferença na viagem e tornaram Marrakech ainda mais interessante. Claudine, a dona do hotel, é uma dessas pessoas. Passávamos horas conversando e até jantávamos juntos. Ela contou muitos detalhes de sua vida e da cultura marroquina. Conversas sempre acompanhadas dos pratos imperdíveis preparados pela Aziza, a cozinheira do hotel.

Tajine de carneiro com tomates e tajine de frango com batata: tempero inesquecível.

Tajine de carneiro com tomates e tajine de frango com batata: tempero inesquecível.

A culinária marroquina é sensacional. Depois que conheci de perto seus sabores, cardamomo, canela e açafrão se tornaram obrigatórios na minha cozinha: é o gosto do Marrocos!

Praça Djemaa El-Fna a noite

Praça Djemaa El-Fna a noite nessa foto do André.

Claudine nos contou também porque havia cobrado tão pouco pelas diárias. Dois meses antes uma bomba havia explodido num café na principal praça da cidade, matando alguns turistas e provocando uma queda no turismo nas semanas seguintes, fazendo com que vários hotéis promovessem descontos. Além disso, era agosto, baixa temporada por causa do calor extremo. A temperatura média enquanto estive por lá foi de 40 graus durante o dia. É bem difícil conviver com esse calor constante. Pense duas vezes antes encarar Marrakech durante o verão! As melhores épocas são primavera e outono.

  • lili

    como sempre , adorei você descreve maravilhosamente bjos