Aos trabalhadores do mar, aos trabalhadores do rio.

Estávamos na Ilha de Zanzibar, um paraíso no Oceano Índico pertencente à Tanzânia e a programação do dia era almoçar no The Rock, um restaurante delicioso e peculiar. Ou melhor, bastante peculiar, afinal não é comum encontrar restaurantes como aquele por aí.

Imaginem uma casinha de adobe caiada, onde folhas secas de palmeiras da ilha fazem as vezes do telhado. Agora imaginem essa casinha cravada em um minúsculo rochedo arborizado que parece flutuar bem no meio do mar. Esse era o restaurante.

O Trabalhador do Mar

O Trabalhador do Mar

A programação era chegar cedo para o almoço, antes da maré alta, para assim caminharmos com a água na altura da canela até a improvisada escada de madeira na base do rochedo que nos levaria à entrada do restaurante. Porém, como nem tudo nesse paraíso era maravilha, atrasamos um pouco e quando chegamos, à primeira vista parecia impossível chegar até aquela ilhota que ficava cerca de cem metros da praia. A maré cheia já havia engolido boa parte dos degraus de acesso ao rochedo e a pequena estrutura do restaurante parecia se debruçar sobre a espuma branca das ondas que suavemente roçavam na base de pedra. A impressão era de que a qualquer momento, toda aquela escultura iria desmoronar sobre o mar azul.

Voluntariamente, dois barqueiros, trabalhadores do mar, se prontificaram a nos levar seguros e secos até o restaurante em troca de uma gorjeta. Entramos no pequeno bote metálico, pintado de tinta azul que descascava em várias partes, revelando os pontos de ferrugem e de desgaste em seu casco. Um dos homens desenterrava da areia uma pequena, porém, pesada âncora. Já o outro, sentado em uma tábua de madeira na proa do barco, se esforçava para puxar a ponta de uma corda que lentamente surgia de dentro das águas. Aos poucos a corda se revelou por completo, emergindo do mar, esticada e suspensa no ar em toda a sua extensão. O barqueiro puxava com força uma de suas extremidades enquanto a outra estava amarada firmemente em algum ponto do rochedo próximo à escada de madeira. No bote não havia remos e nem motor, logo, seriamos puxados até o nosso destino.

Em Zanzibar, barqueiro que não tem remo, nada com corda. Nós chegamos contentes e em segurança ao restaurante, além de muito agradecidos pelo serviço criativo e bem prestado por aqueles dois trabalhadores anônimos.

O trabalhador de pé em seu barco.

O trabalhador de pé em seu barco.

Muito agradecidos também ficamos do outro lado do mundo, no Pará, percorrendo a imensidão do Rio Amazonas, do Rio Tapajós e o curso sinuoso do Rio Arapiuns. Éramos oito a bordo do J. Cardoso V, um simpático barco de madeira onde dormíamos nas redes, comíamos deliciosos pratos locais e assistíamos ao sol cruzar o céu na companhia de Valquir e sua tripulação, (composta por um cozinheiro, o piloto e um ajudante) que nos guiava pelo complexo sistema daquela bacia, enquanto éramos profundamente imersos na vida e na cultura ribeirinha tão cheia dos encantos do Norte do país.

Valquir e seus três ajudantes dominavam suas ocupações com maestria, cravavam o barco nas areias das praias mais paradisíacas para um banho de rio; em movimento, direcionavam o barco precisamente em relação às ondas para evitar aquele balanço indesejável; acordavam de madrugada para desenrolar as lonas que circundavam a embarcação para proteger nossas redes contra a chuva enquanto dormíamos e preparavam divinamente o creme de cupuaçu, caipirinhas e o melhor bolinho de piracuí da região. Mas o ponto alto do passeio foi quando Valquir nos levou até a vila de Urucureá onde vivia às margens do rio.

Barco J. Cardoso V.

Barco J. Cardoso V.

Lá ele nos apresentou sua casa e sua família. Na companhia de sua esposa, tomamos um café no quintal de sua residência, enquanto logo ao lado, em uma cabana improvisada, o pai de Valquir cortava o cabelo de um dos tripulantes. Suas filhas, duas meninas bem novinhas, brincavam na terra crua com alguns pintinhos sem notar que à espreita, uma galinha nervosa e de penas eriçadas parecia estar prestes a bicá-las. A vila de Urucureá era tão pequena e simpática que dava vontade de por no bolso ou de ficar por lá para sempre, mas um dos tripulantes nos lembrou que já era hora de voltar para as águas.

O trabalhador do rio.

O trabalhador do rio.

Fim de tarde no rio.

Fim de tarde no rio.

Na vila De Urucureá.

Na vila De Urucureá.